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As Novas Economias

As Novas Economias

 

Não é pouca coisa: entrado o século 21, todo um quadro de transformações se desenhou, centenas de milhões de pessoas passaram a viver em cidades, conquistaram mais acesso a saúde e educação. Muitos se viram livres de constrangimentos históricos, raciais, de gênero ou sexuais, centenas de milhões de cidadãos escaparam da miséria e experimentaram o acesso à comunicação, à informação e à tecnologia. Mudanças sistêmicas que ainda estão em curso no campo econômico.

No entanto, as incertezas e os contrastes econômicos planetários (indivíduos indescritivelmente ricos vivendo ao lado de mais de um bilhão de pessoas em condições de chocante miséria) fazem com que as pessoas não mais estejam dispostas a acreditar que as instituições tradicionais, como Estados, corporações, igrejas ou universidades, sejam capazes de oferecer a solução e passem a atuar para encontrar soluções distribuídas, descentralizadas, permitidas pelas novas tecnologias. Nesse quadro de descrédito institucional, também emerge a percepção de que as ideologias salvadoras (extrema esquerda, esquerda, direita ou extrema direita) não apenas não resolvem o problema como, frequentemente, fomentam graves conflitos entre os seres humanos. Por isso, os movimentos cívicos – sobretudo entre os mais jovens – se fazem cada vez mais desideologizados, ou seja, sem a necessidade de adesão a rótulos ou matrizes ideológicas rígidas.

Veremos também que o empreendedorismo social não é de esquerda e tampouco de direita, e que essas dicotomias representam velhas batalhas. Insisto no fato de que diversas linguagens estão dizendo a mesma coisa, a complexidade está aberta: precisamos evoluir nossa consciência, aprimorar nossa visão de mundo. Na seara das ações econômicas, vários processos de mudança estão em curso a partir da ética do impacto. Além disso, com a escalada de novas tecnologias que tendem a criar bens de custo marginal zero, podemos estar a caminho de uma sociedade pós-capitalista, com novos tipos de propriedade e de bens coletivos, muito mais eficientes para a sociedade.

Esse fenômeno está em curso acelerado, pois soluções centralizadas não mais resolvem problemas difusos. Jovens de mente aberta – e aqui entra a questão geracional – sabem que uma ideia não é boa ou má porque é de esquerda ou de direita. Uma ideia boa não tem coloração ideológica, uma ideia boa contribui para uma sociedade mais pacífica e solidária. Pintar uma ideia de vermelho ou de azul não faz dela uma ideia boa ou ruim somente porque você prefere vermelho ou azul.

As novas gerações, especialmente a chamada geração Y, trafegam em outra esfera consciencial. Essa geração é mais livre, menos preconceituosa, mais desapegada, mais verde, prefere usufruir a ter e colaborar a competir. E essa geração logo estará em condições de contribuir muito para o destino da humanidade. De fato, se você pretende manter a mente fechada no raciocínio polarizador esquerda/direita, se não aceita a impressionante mudança geracional em curso, terá dificuldades em compreender este livro. Digo isso porque, independentemente da cor das ideias, a ética do impacto não é de natureza retórica. Essas mudanças já vêm ocorrendo. Novos designs econômicos estão surgindo.

Na esfera econômica, relatório publicado recentemente na Harvard Business Review informa que um em cada quatro dólares gerenciados por fundos de investimento profissionais está direcionado para negócios que atendem a critérios de impacto ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês). Um bem-vindo movimento de abertura da mão invisível.

Foi Adam Smith, professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow, Escócia, quem primeiro afirmou que o objetivo econômico do ser humano será sempre o de garantir o seu próprio benefício. Talvez Smith, como defende Amartya Sen, tenha sido mal interpretado e tinha desejado expressar outro sentido moral para a ação econômica. Mas o fato é que Jeremy Bentham incorporou esse conceito em sua teoria utilitarista, depois adotada e difundida pela influente filosofia de John Stuart Mill.

Veremos neste livro que foi a partir desse perigoso paradigma que economistas como Ludwig von Mises, Milton Friedman, Frederik Hayek e Lionel Robbins desenharam o ser humano como Homo economicus, ser humano reduzido, unidimensional e neutro eticamente, que apenas pensa em seu próprio lucro. Desse modo, as figuras centrais do mercado, como o dono de capital, o empreendedor e os gestores, somente poderiam atuar para obter lucro, nada mais. Seria uma lei da natureza e, como em um sistema físico, o lucro seria a única forma de energia capaz de movimentar a máquina econômica.

Lionel Robbins afirmou, ainda em 1935, que “os economistas não têm absolutamente nada a ver com esperanças”, e Milton Friedman formulou forte ameaça, na década de 1960, ao pontuar que nenhum empresário deve aceitar qualquer responsabilidade que não seja “gerar tanto lucro quanto possível para os acionistas”, sob pena de solapar os alicerces da nossa própria sociedade.

Crise social ou ambiental não diria respeito a nenhuma empresa. Suas teses eram no sentido de que a soma de muitos egoísmos geraria uma grande solidariedade. Muita gente acreditou nisso e esse modelo pode ter funcionado parcialmente. Mas grandes crises pós-Segunda Guerra, especialmente a ecológica (relatório da ONU de 1987), a financeira (“subprime” de 2008) e a política (nos EUA, na Grã Bretanha, na Hungria e no Brasil, para ficar apenas nesses), evidenciaram as nefastas consequências das falhas estruturais e morais desse modelo econômico aético e seus reflexos políticos.

Naturalmente, economia tem a ver com leis da natureza, com consumo de energia e entropia, não com determinismo egoísta. Contudo, formuladores de designs econômicos de todo o mundo já descobriram que economia tem mais a ver com humanidade, cultura, ética e evolução consciencial do que com mecanicismo. De fato, os economistas que realizam a ciência econômica “normal” (a que se refere Thomas Kuhn quando explica a estrutura das revoluções científicas) não aceitam que elementos morais ou éticos – como a realização de um bem social ou a tutela de um bem ambiental – façam parte do agir econômico racional, objeto que a Ciência Econômica se propõe a estudar.

A moral, na Economia Ortodoxa, passou a ser um “dado anticientífico” por não lhe parecer mensurável (a ciência contemporânea já vem superando essa limitação). Por isso, fizeram o desenho de um tipo ideal de cidadão, de agente econômico ou de empreendedor que é eticamente neutro. Mas o problema é que, na contemporaneidade, afirmar a neutralidade ética do mercado conduz a profundas implicações morais em uma época na qual, segundo o jornal espanhol El País, entre as cem maiores economias do mundo, 69 são megacorporações, e em que 1% da população do mundo controla 99% de toda a riqueza.

É uma realidade econômica distópica e disfuncional.A mudança tornou-se urgente e inevitável. Nas duas últimas décadas do século 20 e início do nosso século, entram em cena novos e poderosos pensamentos formulados por economistas laureados com o Prêmio Nobel de Economia, como o indiano Amartya Sen, o norte-americano Joseph Stiglitz e o francês Jean Tirole, e também por um economista e banqueiro laureado com o Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, de Bangladesh, criador do primeiro banco social do mundo. Para esses economistas, economia e ética para o bem comum não são incompatíveis, mas matérias incindíveis e necessariamente complementares.

Veremos que, com base nessa nova filosofia econômica, a qual chamo de Novas Economias (e que não é apenas a economia digital), diversos movimentos estão criando sistemicamente, em todos os cantos do mundo, designs de negócios que revisitam o conceito de sucesso empresarial. Preferi chamar de Novas Economias, grafado no plural, porque não é possível, e nem me parece desejável, reduzir as várias correntes a uma única vertente. Ainda assim, podemos dizer que esse conjunto de arquiteturas econômicas inovadoras forma a Economia de Impacto.

O mais antigo e abrangente desses movimentos é o do desenvolvimento sustentável, surgido ainda na década de 1980, que propõe que crescimento sem sustentabilidade social e ecológica não é desenvolvimento. Logo nasceu o empreendedorismo social, pela inspiração de Bill Drayton, fundador da Ashoka, com a proposta de que empreendedores inovadores são capazes de gerar impacto positivo para a sociedade. Nos anos 1990, foi o próprio Yunus, fundador do Grameen Bank e idealizador do Danone-Grameen, quem propôs o conceito de empresa social como aquela que atua no mercado com o fim específico de resolver problemas sociais e ambientais sem distribuir lucro.

Na mesma década, floresceram o movimento responsabilidade social empresarial e o movimento capitalismo consciente. Em 1994, John Elkington propôs o conceito de “Triple Bottom Line”, defendendo que todas as empresas deveriam prestar contas de seu desempenho financeiro assim como do resultado social e ambiental. Defensores do capitalismo natural diziam ainda que deveria ser atribuído valor diferenciado aos insumos críticos (recursos naturais, sistemas vivos e capital humano).

Existem claras “anomalias” que iluminam a mudança. No início do século 21, começam a ser desenvolvidas novas linguagens e prototipados novos designs, tais como: negócio social, negócio com propósito, startup social, setor 2.5, quarto setor, filantropia empreendedora, valor compartilhado, empresa humanizada, empresa B, economia de compartilhamento, economia de custo marginal zero, economia generativa, economia circular, economia solidária, finanças sociais, bancos éticos e diversos outros modelos que atuam em todas as escalas e ressignificam a noção de sucesso nos negócios. Devemos examinar alguns dos novos designs de negócios que estão sendo criados, propostos e utilizados e para os quais o impacto social e socioambiental está no centro das ocupações.

Na América Latina, por exemplo, apenas para o modelo do Sistema B, as 461 empresas certificadas de 102 indústrias diferentes geraram um faturamento geral de 4,5 bilhões de dólares e 562 milhões de dólares ligados a designs de negócios de impacto.

Levantamento feito pelo movimento capitalismo consciente, referente a um período de 20 anos, evidenciou que, na comparação entre o principal índice da Bolsa de Nova Iorque e o indicador das chamadas Empresas Humanizadas norte-americanas, esse último ganhou de lavada, com performance de 2.077% contra apenas 269% do grupo Standard & Poor’s 500. Em comparação semelhante feita no Brasil entre o índice Ibovespa (da Bolsa de Valores de São Paulo) e o grupo de empresas que compõem o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), o Ibovespa gerou uma valorização de 113,72% em 10 anos de medição e o indicador das sustentáveis valorizou-se em 185,01% no mesmo período. Outra lavada. De acordo com relatório de 2019 da Global Impact Investing Network (GIIN), são 239 bilhões de dólares alocados em fundos de investimento de impacto, somente entre os gestores pesquisados.

Segundo o artigo da revista de Harvard mencionado anteriormente, cerca de 11,6 trilhões de dólares foram investidos em empresas ESG no ano passado. Larry Fink, o poderoso CEO do fundo Black Rock que administra mais de 6 trilhões de dólares em todo o mundo (trilhões mesmo, não é erro de digitação), afirmou em sua famosa carta de propósitos para 2019 que a geração dos millennials, a qual deverá herdar aproximadamente 23 trilhões de dólares nos próximos anos, está atenta às questões ambientais, sociais e de governança, e que esses referenciais serão cada vez mais significativos para as avaliações de investimentos. Thomas Khun ensina que quando estamos diante de uma mudança de paradigma é possível observar, cada vez com mais frequência, o aparecimento de “anomalias” confirmando a transformação em curso. Os números acima confirmam que a ética do impacto é a anomalia que está mudando o eixo econômico da Terra.

A explicação é a existência de uma combinação única a que chegamos hoje, capaz de liberar novas forças. Um Movimento Transformador Massivo, no qual expressiva parcela da sociedade é mais livre, inclusiva, inovadora, colaborativa, empática, consciente e com total acesso à informação e à tecnologia. Essas pessoas, distribuídas em todas as classes e culturas, sobretudo entre as novas gerações, compartilham do propósito de gerar impacto positivo no mundo e estão aprendendo rapidamente a se utilizar do mercado para isso. Uma conjugação de fatores educacionais, geracionais, conscienciais, econômicos, tecnológicos, entre outros, capazes de gerar mudanças sistêmicas. É a Era do Impacto que chega irreversivelmente à economia do século 21.

(Esse texto foi adaptado do livro A ERA DO IMPACTO, Editora Voo, 2019, pgs. 59 e seguintes, www.aeradoimpacto.com,  também disponível em formato Kindle e Google Books)

 

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